terça-feira, 27 de junho de 2017


a estúpida da gata só traz bichos,
para junto da porta
não basta ter a vida torta,
agora até ouriços
como não soubesse que tenho picos
na casa, na alma, nos caminhos
 

a estúpida da gata levou os ratos,
eram companhia no escuro
em que perduro.
agora, silêncio profundo
como se não soubesse o fundo
da vida, da memória , de rastos
 

a estúpida da gata apanha cobras e lagartos,
que me atormentam e acompanham.
no desespero, na ignorância
de estar perto da distância
de ficar quando parto
 

a estúpida da gata não traz,
o coração
de quem partiu
de quem desistiu
e deixou a solidão
que em mim se faz
 

in Pensamentos, Rui E. Horta

 

 
 
Dei-te um tiro, depois de teres dito que não querias mais nada comigo.
A seguir? Recostei-me.
E foi um vazio.
Nada mais tinha do que uma profunda distância.
Uma ausência de mim.
Sim, de mim. Pois não sabia mais pelo que lutar.
Quando não me querias, a ilusão existia ao lado. E a desilusão a minha linha infinita.
Dei-te um tiro, depois de teres dito para ir embora.
 
Como podia fazer sem te levar?
Tinhas de vir também.
No meu querer, no meu desejo.
Por isso dei-te um tiro e recostei-me...
Fumei um cigarro.
Foi um tiro bem dado
Precisava tanto de um cigarro...
 
in Pensamentos, de Rui E. Horta
 
 


No início de noite clara
O teu corpo foi uma descoberta
Estilhaços de uma vida
Desconhecida
Inquieta
 

No início de noite clara
O teu corpo é uma janela
Abraços de maresia
Envolvente
Quente
 

Uma brisa de intensa luz
Clareia uma cama revolta
Implodem segredos
Morrem tormentos
Num silêncio que volta
Numa vida em contraluz
 

No início de uma noite clara
O teu corpo é o meu abrigo
onde nada existe
e de nada se desiste
 

No início de uma noite clara
O teu corpo é uma infinita vontade
Onde me perco
Onde te ganho

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Nada me inspira
Por estes dias de vento
Por este mar revolto
          Quem em mim habita

São noites vazias
          Escuras, Frias

Nada me inspira
No silêncio do medo
Nesta casa que sou eu
          Por vezes finita

São dias cinza
          Os que tenho
São horas melancólicas
          As que durmo

Nestes dias
Nada me inspira
          E tudo me atrofia

As palavras
Os tapetes em rodilha

Nestes dias
O que me inspira
          É o vazio
O eco de olhar frio
que chega e tudo aspira.

in Nocturnos

sexta-feira, 12 de maio de 2017


Pensas que sou forte.
Não sou,
Por dentro estilhaços
Por fora cimento armado

Pensas que sou forte.
Gostava de ser,
Para aceitar ausência
Para esperar nascença

De um caminho interrompido
De uma casa destruída

Pensas que sou forte.
Mostro calma,
pela revolta
pela derrota

Pensas que sou forte.
Deixei de ser,
porque chegaste
porque tomaste

A rua que caminhava
A alma que ganhava

Hoje, sou fraco.
No teu silêncio,
no abraço que negas
no olhar que relevas

Hoje, sou fraco.
À distância,
da palavra surda
da frase aguda

in Nocturnos

terça-feira, 9 de maio de 2017


Não entendo o que fazes
não entendo porque não travas
não entendo porque não pensas
não entendo porque não gostas de estar comigo,
                        connosco.
Não entendo tantas coisas.
E, isso, para mim é terrível.
Não tenho medo, ou talvez tenha.

E isso, também, não entendo.

in Nocturnos

quinta-feira, 4 de maio de 2017


Acorda!
Hoje, se possível...
Ontem? dormiste e a vida passou.

in Nocturnos